Santificação por meio da Oração Mental.

O grande clássico da literatura cristã, Relatos de um Peregrino Russo, narra a vida de um russo que após passar por uma profunda conversão em sua vida deseja se entregar totalmente a Deus por meio da oração. Ele deseja responder o clamor de São Paulo: ORAI SEM CESSAR. Sem querer entrar muito em detalhes desse belo livro, o Peregrino viaja, ou melhor, é guiado pela Providência, por toda a região ao entorno de sua cidade a fim de alcançar seu objetivo que é a união com Deus por meio da oração.  

A essência que deve permanecer da história do Peregrino é que a nossa vida deve ser uma longa e bela oração, tal qual foi a vida de uma Santa Teresa e de um Santo Tomás de Aquino. Infelizmente (ou felizmente, pois quem faz de toda sua vida uma luta santa há de conseguir a coroa da bem-aventurança eterna), alcançar tal grau de perfeição exige tempo e esforço de nossa parte, na realidade, sem a prática da oração propriamente dita não conseguiremos alcançar o nosso fim último: a santidade, a união com Deus. Na verdade, sem a oração quiçá conseguiremos a salvação. Com isso, não quero dizer que a santidade é obra meramente humana, de forma alguma, sem a Graça de Deus não podemos nada, repito, sem a graça somos apenas pó. Sobre essa realidade da oração, Santo Agostinho escreve de forma belíssima: “A oração, saibamo-lo ou não, é o encontro da sede de Deus com a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d’Ele” (Santo Agostinho, De diversis quaestionibus octoginta tribus, 64, 4: CCL 44A, 140 (PL 40, 56).). 

Passada essa breve introdução, podemos falar sobre a oração mental. Desejo aqui tentar de certo modo (1) definir a oração mental, (2) discorrer brevemente sobre sua importância e depois (3) deixar um método atestado pelos grandes santos para se realizar a oração mental.

Para Santa Teresa a oração mental “não é outra coisa senão uma amizade divina, um colóquio frequente, a sós, com Aquele por quem sabemos ser amados” (Vida, cap. VIII). O Padre Garrigou completa: “É uma oração inteiramente espontânea, toda íntima, que as almas cristãs verdadeiramente simples e puras sempre conheceram” (Lagrange, As Três Idades da Vida Interior, 538, Ed. Cultor de Livros, 2018, SP). 

Quanto a importância da oração mental, o Padre Faber é categórico: “O negócio mais importante da vida interior é a oração mental. (…) a oração mental é necessária à perfeição e que sem ela a vida espiritual torna-se impossível, porque a oração mental consiste em fixar as faculdades em Deus, não para refletir ou especular sobre ele, mas para induzir a vontade a conformar-se à Sua, e os afetos a amá-Lo.” (Faber, Progresso na Vida Espiritual, 219, Cultor de Livros, 2016, SP) 

Concluímos por isso que a oração mental não é apenas um ato da inteligência, como um simples estudo ou leitura, apesar de tudo isso ser muito proveitoso. Trata-se de uma conversa com aquele que amamos, uma conversa que nos leva a contemplar a grandiosidade de Deus, sua infinita bondade, misericórdia e justiça. Essa contemplação transforma, não sem a graça de Deus, a nossa vida e conforma a nossa vontade a vontade do Pai. Seria igualmente errado pensar que a oração mental é algo sem importância e que podemos fazer de qualquer maneira, quando o assunto é Deus, ZELO é prova de amor.  

Nesse sentido, o melhor é seguir fielmente os conselhos dados por um piedoso diretor espiritual, uma vez é próprio do diretor conhecer nossos pontos altos e pontos baixos, aquilo que pode nos fazer bem e aquilo que pode nos fazer mal, aquilo que é pertinente de ser meditado e aquilo que não é tão interessante ainda. Sabe-se, no entanto, que nem todos tem essa graça, por isso desejo passar um método confiável para que você faça bem a sua oração mental (caso você seja um desses, recomendo vivamente que reze em busca de um bom diretor!). Já aviso que você não precisa se agarrar a esse método, adapte-o caso deseje, mas não faça esse piedoso exercício espiritual de forma negligente.  

Os escritores espirituais atestam que existem duas preparações a serem feitas: a preparação remota e a preparação próxima. A preparação remota é a mais importante, como atesta o Padre Garrigou Lagrange, trata-se de um trabalho da vida: afastar-se dos pecados e das ocasiões próximas de pecados, tais como más companhias que sempre nos levam a pecar ou certos locais perigosos, recolher-se durante o dia lembrando sempre de Nosso Senhor e da Virgem Santíssima, ordenar as paixões, viver sacramentalmente, conquistar as virtudes, enfim, é um trabalho constante.  

A preparação próxima é aquela feita nos instantes antes da oração propriamente, segue algumas dicas importantes: (1) prepare o assunto no dia anterior, de preferencia a noite: escolha o tema, leia ou ouça um vídeo confiável sobre o assunto (por exemplo, se na segunda você irá meditar sobre a Paixão, utilizando-se das Sagradas Escrituras, leia o capitulo do Evangelho no domingo e tente formar uma imagem em sua mente sobre aquele fato narrado, vá dormir com essa imagem). (2) Ao acordar, levante-se e faça suas orações habituais, permaneça na presença do Senhor, fazendo um ato de fé e adoração, após isso faça um ato de humildade e arrependimento (não há espaço na mesa do Senhor para os corações soberbos), por fim, implore a luz divina. Esses 3 atos (de fé e adoração, humildade e arrependimento e petição da luz divina) devem ser breves, mas fervorosos (uns 5 minutos bastam)!  Convém pedir a intercessão de Nossa Senhora, São José e nosso Anjo da Guarda. 

Após isso façamos a nossa meditação, é bom se servir de um livro espiritual ou do Evangelho. O livro Escola de Perfeição Cristã ressalta, no entanto, que o proveito da oração mental consiste mais nos afetos, petições e proposito que na consideração. O (A) Afeto seria, ao encontrar um ponto do texto que te toca profundamente, elevar teu coração a Deus, fazendo atos de amor. (B) As petições são pedidos, principalmente pedidos que se referem a salvação de nossa Alma e do próximo. Por fim, segue os (C) propósitos, que são ações particulares, especificas e possíveis de serem praticadas, como evitar tal ocasião de pecado, praticar tal e tal mortificação, lutar para adquirir tal virtude utilizando de tais e tais meios, etc.Convém ter consigo um pequeno caderno a fim de anotar as inspirações, resoluções e propósitos.

A conclusão é o encerramento da meditação: agradeça a Nosso Senhor por aquele momento e peça as graças necessárias para praticar as resoluções que você tomou, convém aqui lembrar das santas Almas do Purgatório. Por fim, faça um ramalhete espiritual, ou seja, gravar na memória pontos da meditação para serem lembrados durante todo o dia.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

Catecismo da Igreja Católica, Ed. Loyola, SP, 2011 

LAGRANGE, As Três Idades da Vida Interior, I, Ed. Cultor de Livros, 2018, SP 

Edouard Saint-Omer, Escola de Perfeição Cristã, Ed. Cultor de Livros, 2016, SP 

ANÔNIMO, Relatos de um Peregrino Russo, Ed. Vozes, 2018, Petrópolis, RJ 

FABER, Progresso na Vida Espiritual, Ed. Cultor de Livros, 2016, SP 

http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4-intr_2558-2565_po.htm

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