A Educação do Imaginário e a Obediência ao Real – Parte I

Autor: Diogo Lopes Lima

A formação do imaginário é um elemento essencial da educação. A articulação do pensamento, a escrita, a narração de histórias, a argüição nos debates e até mesmo os atos simples do dia-a-dia são previamente estabelecidos pelos esquemas mentais produzidos no imaginário, mas que foram adquiridos pela boa e velha experiência do real. Isto pode parecer uma defesa da teoria lockeana de aquisição de conhecimento, mas não é. O conteúdo não é meramente transposto para uma folha em branco, pois ele carece de elementos que organizem a sua recepção.

O que há de errado na condição humana de contemplação do real e da sua beleza? Por que os adultos perderam a noção de “maravilhamento” do belo que se tem diante dos olhos? Por que um bebê consegue sorrir quando nota alguns simples dedinhos mexendo diante de seu rosto e acha que aquilo é mágico? Porque é um momento mágico. E somente uma criança tem isso.

Quando crianças, não nos damos conta da genialidade das obras daqueles que lemos ou vemos – especialmente na tv por meio dos desenhos animados e seriados infantis. Apenas aqueles que foram elaborados com maestria, com bom senso estético e artístico de alta cultura: músicas clássicas, peças de teatro ou qualquer decente literatura produzida por gente que buscou obedecer às normas básicas da condição da inteligência humana normal. Ainda resta algo na memória e que não foi afetado por psicologismos, indignos da verdadeira beleza da admiração de uma criança ante a trivial e maravilhosa experiência do real. A criança admira, ri e contempla o sublime que a leva, logo, ao exercício fundamental que é contemplação do milagre das coisas simples. Somente um adulto maduro reflete esta admiração retornando ao passado, examinando sua consciência e os outros elementos constituintes da alma, saneando suas experiências vividas e aprendendo a ser melhor.

O mundo não se apresenta em configuração lógica, mas os dados e fatos são oferecidos, o que Adler nomeia como a asserção da realidade, a asserção sobre o próprio mundo (1). Esses dados e fatos chegam até nós por meio da experiência concreta proximal através dos sentidos bem como da apreensão das experiências contidas na literatura, na poesia, nos contos, peças teatrais etc. O trabalho leitor e, especialmente, o dever do estudioso é vincular a ordem lógica as experiências originárias anteriormente vivenciadas ou acessadas no edifício mito-poético (falaremos no próximo texto sobre este discurso) sem o qual nada, absolutamente nada, pode ser concebido analiticamente.

Não se trata de estudar os escritos literários, a hermenêutica do autor, etc como objeto. Mas de tomar posse das obras, das figuras de lingüagem, símbolos, descrições de paisagens ou até meandros poéticos que, absorvidos pela memória qualificam o intelecto para melhor recolocar as informações em sua pesquisa, ainda que por comparações contrárias. O domínio prático dá seguridade à pesquisa. A investigação imaginativa estabelece o nexo entre o imaginário que possibilitam a vinculação posterior no mundo real que se mostra. A lógica é uma articulação das possibilidades. Como contemplar o Logos Divino sem passear pela vida dos seus santos? Para que desprezar as obras clássicos e ficar longe das grandes aspirações, dramas e virtudes da humanidade?

A compreensão da experiência do fato depende do esforço intelectual que transpõe do campo das idéias às descrições. O dizer na lingüagem filosófica é constituído a partir das articulações que, depois da experiência intelectual do conhecimento das figuras imaginativas (o mundo das possibilidades), se conectam, se reorganizam e podem ser expressadas verbalmente. O significado do real está para além do uso convencional que se pode fazer do objeto. É complexa, porém simples tal estrutura da realidade a ser apreendida – na medida do possível – pela mente humana: complexa porque as conexões/interdependências dos discursos carecem de certo treino para serem percebidas; simples já que tudo nos foi dado por Deus de bandeja, mas é preciso recolher o presente com docilidade, sinceridade e constância nisto que pode ser chamado de busca da verdade. Trata-se da magnífica percepção da beleza, da bondade e da verdade na simplicidade das coisas. Parece algo infantil, mas o adulto precisa se esforçar para retomar algo que belisque aquilo que, na infância, contemplava para distingüir o belo do feio, o bom do mau, o verdadeiro do que é falso e defeituoso. E enxergar a beleza se tornou uma tarefa bem mais que difícil no Brasil.

(1) ADLER, Mortimer. Aristóteles para todos: uma introdução simples a um pensamento complexo, tradução Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010.

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