Resenha: A Virtude da Ordem, de Francisco José de Almeida

Autor:
Carlito Lopes de Oliveira Júnior, fundador do La Vie Intellectuelle

“Tudo tem seu tempo determinado”
Eclesiastes III, 1

Em um mundo tão acelerado, desordenado e confuso, deixamos de fazer o que é essencial para a nossa vida, que é cuidar da vida interior, e deixamos perder-se em afazeres que tomam todo o nosso tempo, como o trabalho, a academia, a faculdade, etc. Porém, não se trata de falta de tempo, e sim de falta de ordem. Isso mesmo! Você não consegue ter uma vida de oração mais intensa não porque trabalha muito ou estuda muito, mas porque não se organiza dando a devida importância aos seus afazeres cotidianos.
Na obra A Virtude da Ordem, de Francisco José de Almeida, publicado pela editora quadrante, podemos conhecer conselhos práticos, inspirados nos ensinamentos de São Josemaria Escrivá, para sair do ócio ou da tibieza e ascender a uma vida de maior intimidade com Deus.
A ordem é uma virtude-senhora, como diz o autor. Diferente das outras virtudes, ela abre caminho para adquirir outras virtudes. Como por exemplo, a virtude da estudiosidade através da organização do tempo para conseguir pelo menos duas horas para dedicar-se aos estudos, o que é aconselhado pelo padre Antonin Sertillanges, O.P. em sua obra A Vida Intelectual, publicado pela É Realizações. Ou por exemplo mais tempo para dedicar-se a alguma leitura espiritual, que levará o leitor a crescer na virtude da piedade, etc.
O que muitas vezes impede o crescimento do cristão na vida espiritual é, muitas vezes, falta de critério para ordenar seu cronograma – quando há um, o que já é certo progresso. Santo Agostinho dizia: “você corre bem, mas erra o caminho”. Não é isso que ocorre conosco quando nos esforçamos tanto para crescer na vida espiritual, mas não conseguimos perseverar? Para isso, é necessário critério para ordenar. Observemos nossa mão. Ela possuem cinco dedos, de tamanhos diferentes, contudo, torna-se deficiente quando algum dedo cresce anormalmente, ou quando há a ausência de algum dedo. O autor traz para nós, a partir dessa analogia, uma visão da verdadeira hierarquia de critério para a ordem, que é:

Os trabalhos profissionais, simbolizados pelo dedo indicador;
Os deveres religiosos, representados pelo dedo médio;
As obrigações familiares, figuradas pelo dedo anelar;
O descanso e a cultura, expressas pelo dedo mindinho;
E as responsabilidades de caráter social, refletidas pelo dedo polegar.

O maior dedo é o dedo médio, que representa nossos deveres religiosos. Reconhecendo que o sentido de nossa vida é conhecer, amar e servir a Deus, encontramos o trilho certo que nossa vida deve andar, logo, os deveres para com Deus devem ter maiores prioridades em nosso cronograma. O autor dirá, com muita felicidade, que uns minutos de oração são certamente mais importantes que oito horas de trabalho seguido, e não passam de uns minutos.
Com tamanhos próximos, teremos os dedos anelar e o indicador. O dedo anelar, normalmente, costuma ser levemente maior que o indicador, o que figura a importância da família ante o trabalho. As obrigações familiares que dão sentido ao trabalho e força ao trabalhador. Não se pode descuidar de nenhuma responsabilidade familiar em prol do trabalho, visto que isso seria inverter a importância, o que acarretaria em uma deformidade gigantesca, como um pai que trabalha até altas horas e não consegue participar da criação dos filhos.
Ocupando o quarto lugar na hierarquia dos dedos temos o dedo mindinho, que representa o descanso e a cultura. Não olhemos com tristeza para o pequeno tamanho na hierarquia de algo tão desejoso por nós, porque ainda sim é algo necessário. Adquirir cultura é elevar o espírito. Descansar a mente e repousar o corpo é renovar-se para estar todo para Deus, cuidar da família e conquistar o pão de cada dia. Isso requer descanso.
E finalmente temos as responsabilidades de caráter social. Não achemos que pela estatura do dedo polegar não há importância. Para o cristão, todo dever é um dever para com Deus e o irmão. Significa cuidar dos relacionamentos sociais. Ser solícito aos amigos, aos irmãos de paróquia, aos colegas de trabalho fora do tempo de serviço, etc. É ser presente e doar presença verdadeiramente, sem está presente com metade de sua atenção, vivendo como irmãos.
Apesar de ser necessária apreender toda a noção do critério para a ordem, devemos ter em mente o seguinte: é a caridade que dá sentido a toda hierarquia, e servir ao próximo, dado a oportunidade, a caridade passa por cima de todas as outras obrigações, porque o amor a Deus está refletida nas boas obras, principalmente nas obras de misericórdia, sejam elas corporais ou espirituais, tão incentivadas pelo Papa Francisco no ano da misericórdia. 
Sejamos, pois, homens e mulheres ordenados, porque como diz Santo Agostinho: “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem”

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